Faltam dezenove minutos pras vinte e uma horas. E aí eu penso, eu visualizo alguém me perguntando as horas nesse exato minuto e, com o meu tão desejado relógio do Salvador Dalí (o bigodinho é o ponteiro e se mexe) eu digo “ah, dezenove pras vinte e uma”. Como se alguém dissesse isso! Mas o meu tom ia ser tão natural.
Minha mãe quer me matar. Ela veio na surdina e desligou o ventilador. E eu só senti que suava muito e que todas as minhas camisas em breve se tornarão regatas.
O chá tá pronto. Sim, você não leu errado, o chá. Eu tenho sérios problemas com abstinência de café e o açúcar acabou e eu sou filha da puta o suficiente pra não comprá-lo — e já faz uma semana. E eu tenho preguiça de fazer café no trabalho. Ninguém toma café naquela porra. Inferno.
Mesmo eu me desidratando com cinco minutos sem ventilador, eu preciso tomar algo quente, porque esses dias eu sinto a estranha necessidade de sentir alguma coisa (tô anestesiada). Hoje eu peguei o metrô errado e, quando vi, eu estava em São Cristóvão. Então, eu deixei… tudo bem. Nunca pego os trens da linha dois do metrô. A linha dois do metrô é conhecida pela linha em que uma velhinha adentra o vagão e todos que se encontram sentados nos bancos preferenciais fecham os olhos e simulam roncos e coisas do tipo.
O legal da linha dois do metrô é que rola um esquema de superfície e você vê o feio do Rio de Janeiro, tipo o que você não encontra em guias turísticos porque ninguém se importa.
Quando chover, me envie uma mensagem de voz gratuita para o número do meu celular e diga “pegue a linha dois”. Imagine, o trem sendo molhado, os vidros embaçados… você dentro de um lugar com ar-condicionado, pessoas de olhos fechados, o barulho (ou será que isola?) da chuva e todo mundo pensando que demora quarenta minutos pra chegar em casa e eu lá, pensando na textura das coisas que ultrapassam o tato, que ultrapassam todos os sentidos do mundo, afinal, mas que você sente assim mesmo. Que eu sinto assim mesmo.
Aí eu ia lembrar de quando, há uns anos atrás, eu fui a Petrópolis. Petrópolis chama Petrópolis porque vem de petróleo. Mentira, mas eu escutei isso. Eu num ônibus, com uma camisetinha de tecido fino fino, sem puta idéia de nada, indo pra Petrópolis porque Petrópolis parecia ser um lugar legal.
A imagem da subida na serra (Serra? Será?) nunca sai da minha mente. E eu dentro daquele ônibus-ar-condicionado-modernésimo. Deve ser tipo quando chove na linha dois do metrô. Que é quando chove no Rio de Janeiro. Que é quando chove na linha um, que é onde ninguém vê nada, só o próprio reflexo no vidro.
— Você parece triste hoje, Raquel.
— Quê? Anhm? Putz. Eu não tô triste. Estar é um estado de espírito passageiro, mas eu não sou adequada a esse tipo de estado. Eu sou feliz, eu tô feliz. Eu tô aqui com você.
Aí eu dou um puta sorriso amarelo. Quando você lê aquela placa “sorria, você está sendo filmado” e você sorri, você sorri amarelo, porque não há mais a surpresa.
E aí eu continuo o monólogo:
— É esse sol… esse calor. Bloqueia a minha mente. E eu escuto essas músicas tristes de gente sem amor.
Essa mina que acha que eu tô triste fica olhando fixamente pra mim quando eu tô distraída. E ela é a terceira pessoa que fica olhando fixamente pra mim quando eu tô distraída. Eu sou cínica mas fico constrangida.
— Cara, você tem esses olhos.
— Que olhos?
— Sei lá. Eles são muito bonitos.
— Por que?
— Eles são meio amendoados, uma coisa muito bonita.
— Eu não tenho olhos amendoados porra nenhuma. E sou a Juliana Paes.
— Pára.
— Ok.
Aí, como uma cena de filme, corta para a gente numa estação de metrô da linha dois.
— Detesto essas gurias destruidoras de coração que nunca precisaram correr atrás de ninguém e sempre tem quem querem na palma da mão.
— Raquel, não é assim. Eu já… ok, é assim. Eu sou assim.
Minha mãe quer me matar. Ela veio na surdina e desligou o ventilador. E eu só senti que suava muito e que todas as minhas camisas em breve se tornarão regatas.
O chá tá pronto. Sim, você não leu errado, o chá. Eu tenho sérios problemas com abstinência de café e o açúcar acabou e eu sou filha da puta o suficiente pra não comprá-lo — e já faz uma semana. E eu tenho preguiça de fazer café no trabalho. Ninguém toma café naquela porra. Inferno.
Mesmo eu me desidratando com cinco minutos sem ventilador, eu preciso tomar algo quente, porque esses dias eu sinto a estranha necessidade de sentir alguma coisa (tô anestesiada). Hoje eu peguei o metrô errado e, quando vi, eu estava em São Cristóvão. Então, eu deixei… tudo bem. Nunca pego os trens da linha dois do metrô. A linha dois do metrô é conhecida pela linha em que uma velhinha adentra o vagão e todos que se encontram sentados nos bancos preferenciais fecham os olhos e simulam roncos e coisas do tipo.
O legal da linha dois do metrô é que rola um esquema de superfície e você vê o feio do Rio de Janeiro, tipo o que você não encontra em guias turísticos porque ninguém se importa.
Quando chover, me envie uma mensagem de voz gratuita para o número do meu celular e diga “pegue a linha dois”. Imagine, o trem sendo molhado, os vidros embaçados… você dentro de um lugar com ar-condicionado, pessoas de olhos fechados, o barulho (ou será que isola?) da chuva e todo mundo pensando que demora quarenta minutos pra chegar em casa e eu lá, pensando na textura das coisas que ultrapassam o tato, que ultrapassam todos os sentidos do mundo, afinal, mas que você sente assim mesmo. Que eu sinto assim mesmo.
Aí eu ia lembrar de quando, há uns anos atrás, eu fui a Petrópolis. Petrópolis chama Petrópolis porque vem de petróleo. Mentira, mas eu escutei isso. Eu num ônibus, com uma camisetinha de tecido fino fino, sem puta idéia de nada, indo pra Petrópolis porque Petrópolis parecia ser um lugar legal.
A imagem da subida na serra (Serra? Será?) nunca sai da minha mente. E eu dentro daquele ônibus-ar-condicionado-modernésimo. Deve ser tipo quando chove na linha dois do metrô. Que é quando chove no Rio de Janeiro. Que é quando chove na linha um, que é onde ninguém vê nada, só o próprio reflexo no vidro.
— Você parece triste hoje, Raquel.
— Quê? Anhm? Putz. Eu não tô triste. Estar é um estado de espírito passageiro, mas eu não sou adequada a esse tipo de estado. Eu sou feliz, eu tô feliz. Eu tô aqui com você.
Aí eu dou um puta sorriso amarelo. Quando você lê aquela placa “sorria, você está sendo filmado” e você sorri, você sorri amarelo, porque não há mais a surpresa.
E aí eu continuo o monólogo:
— É esse sol… esse calor. Bloqueia a minha mente. E eu escuto essas músicas tristes de gente sem amor.
Essa mina que acha que eu tô triste fica olhando fixamente pra mim quando eu tô distraída. E ela é a terceira pessoa que fica olhando fixamente pra mim quando eu tô distraída. Eu sou cínica mas fico constrangida.
— Cara, você tem esses olhos.
— Que olhos?
— Sei lá. Eles são muito bonitos.
— Por que?
— Eles são meio amendoados, uma coisa muito bonita.
— Eu não tenho olhos amendoados porra nenhuma. E sou a Juliana Paes.
— Pára.
— Ok.
Aí, como uma cena de filme, corta para a gente numa estação de metrô da linha dois.
— Detesto essas gurias destruidoras de coração que nunca precisaram correr atrás de ninguém e sempre tem quem querem na palma da mão.
— Raquel, não é assim. Eu já… ok, é assim. Eu sou assim.
I don't know what to do when you try to hold my hand. Ou quando você quer que eu enlace a sua cintura. Complicado.
Cansei. Vai se ferrar, Fernanda.
Eu tenho um sério problema mental. Toda a hora a Fernanda dizia que a estação era/estava fazia e eu dizia que era porque ficava na linha dois, então, devia ser, sei lá, a estação putaquepariu e tava só a gente lá.
Obviamente é muito fácil falar de amor e relacionamentos quando todo mundo corre atrás de você, correto? Parei de bancar a bitch invejosa, tá tudo bem, eu tô numa boa. Eu vivo assim.
O dia em Petrópolis foi chuvoso, eu peguei chuva com a minha camisetinha fina que me deixou na puta que pariu de tanto frio, eu fui na fábrica de chocolates e isso me lembra o dia em que estiver chovendo e eu resolver pegar o trem da linha dois, sentar no banco especial, fechar meus olhos, escutando uma musiquinha bem interessante de gente sem amor.
O negócio é que eu jantei, tomei banho, deitei no sofá e fiz uma pá de coisas e faltam vinte e nove pras dez.
Cansei. Vai se ferrar, Fernanda.
Eu tenho um sério problema mental. Toda a hora a Fernanda dizia que a estação era/estava fazia e eu dizia que era porque ficava na linha dois, então, devia ser, sei lá, a estação putaquepariu e tava só a gente lá.
Obviamente é muito fácil falar de amor e relacionamentos quando todo mundo corre atrás de você, correto? Parei de bancar a bitch invejosa, tá tudo bem, eu tô numa boa. Eu vivo assim.
O dia em Petrópolis foi chuvoso, eu peguei chuva com a minha camisetinha fina que me deixou na puta que pariu de tanto frio, eu fui na fábrica de chocolates e isso me lembra o dia em que estiver chovendo e eu resolver pegar o trem da linha dois, sentar no banco especial, fechar meus olhos, escutando uma musiquinha bem interessante de gente sem amor.
O negócio é que eu jantei, tomei banho, deitei no sofá e fiz uma pá de coisas e faltam vinte e nove pras dez.
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