10/11/2009

Caso Surreal

Fui almoçar. Olho no ristorante inteiro: um lugar vago, ao lado dos Deuses Gregos. Como não sou mulher de esperar, fui direto para a mesa. O bonitinho não se deu ao trabalho de retirar a sua grande mochila que impedia a minha pessoa de sentar na cadeira, então, como não sou mulher de esperar, peguei a mochila e tasquei longe.

Mentira.

Chamei “o grande” e pedi para retirar a mochila do gentleman, que nem se importou. No caminho de volta ao escritório, uma moça tatuada, com cara de viciada em drogas na abstinência, levemente chapada, me diz que consulta com Profetisa Valquíria é de graça. De graça até injeção no olho e, até porque, sou arroz soltinho — tooooooooda receptiva. Vamos. Então, subi numa escadinha de madeira traçando rotas de fuga e revendo meus golpes fatais que aprendi a nunca coloquei em prática.

— Nome?
— Raquel Estrela. (sempre mentindo os nomes)

Então, vejo um senhor transtornado e chorando. Taquicardia, “hm, já vi que será emocionante”.

Entro na sala, branca e uma mulher com cara de louca, vários anéis e trajando jaleco sentada, me olhando.

— Você que é a Raquel, hm, Estrela?
— Eu merma.
— Você tem algum problema?
— Não.
— Você tem insônia?
— Tenho.
— Isso já é um problema, correto?
— Correto.
— Quando você não consegue dormir, o que faz?
“Eu me masturbo vejo vídeos pornôs do Burning Angel.”
— Eu fico olhando pro teto.
— Sua cabeça fica vazia, não é?
“Nunca! Cafeína e sangue no olho!”

Então, comecei a pensar em corsets. Vocês não tem noção, a mulher era uma vigarista da cabeça aos pés.

— Sim senhora.
— Você mora com a sua mãe e seu pai?
— Não, só a matriarca.
— Eles são separados?
— Nunca se casaram.
— Isto é um trabalho de feitiçaria que fizeram contra a sua avó e que refletiu nos filhos e filhas e vai refletir em você.

Pausa. Dona Juliana, minha avó? Dona Juliana morreu em 1982, ainda no capiau interior e todos da cidade a amavam e veneravam e todos compareceram ao enterro. Sem exceção. Então, ela pediu para eu falar da minha vida sentimental. Falei que nem guêi no armário, “uma pessoa”, “uma pessoa”, nada demais. Então eu falo que não costumo me envolver sentimentalmente com as pessoas (entretanto tenho uma promiscuidade sentimental escandalizadora).

Então ela disse eu ia às festas toda arrumada e que me perguntava o por quê dos homens não olharem pra mim. Isso nunca aconteceu, biexo. Os caras sempre mexem e sempre é desagradável. E ela tocou muito nessa tecla dos meus homens que não olham pra mim, dizendo que eu me perguntava o por quêêêê eles não comentavam, cara, eles comentam, elogiam, bibibibi. Louca de jaleco.

Então ela disse que era para eu levar a matriarca para fazer uma limpeza espiritual, pois éramos afetadas por entidades e McBlá. Então, ela pegou na minha mão e disse que era para eu pensar na minha vida e disse que eu era invejada no trabalho.

Claro. Trabalho com três pessoas muitíssimo bem sucedidas e que provavelmente não sentem inveja das minhas camisas de lenhador. Mulher não fazia o mínimo pra impressionar, tava me sentindo traída. Então, ela diz que se fosse de meu interesse, que levasse uma peça íntima branca (pois a mesma disse que não trabalhava com outras cores). Malzaê, minha bregaíntima só tem bege.

Emocionada, ela abriu a gaveta e me deu um saquinho com sal ESPIRITUALIZADO (palavras dela) que era para eu colocar no meu armário e que amanhã, se eu quisesse comparecer ao culto, curimba, exorcismo, sei lá, que levasse uma oferta S-I-M-B-Ó-L-I-C-A de R$ 21.

0 comentários: