26/08/2009

Verde, rosa, preto e branco. Acho.

Eu sou vascaína e mangueirense. Sempre disse que contaria as duas histórias porque elas são lindas e devem ser contadas.

Eu sou vascaína porque um dia, no auge dos meus independentes três ou quatro anos, umas vizinhas me perguntou qual era o meu time. Em toda a minha fofurice, perguntei “o que é um time?”. A Clarissa, putz, eu lembro o nome dela, me puxou num canto e eu pensei que, sei lá, ia rolar uns amassos. Ok, eu não pensei, porque eu não tinha toda essa malícia nos meus três anos, mas se fosse hoje em dia eu provavelmente pensaria assim. Então, ela disse: “diga Vasco, ok? Só isso” e eu disse. Essa é a porra da história linda da minha vida, eu, sendo manipulada por uma vizinha e mentindo na cara dura.

Uma semana depois, ou dois anos depois, vá saber, o Vasco ganhou um jogo relativamente importante contra o Flamengo e lá estava eu, a matriarca, com três machos flamenguistas, dentro do elevador. Eles putos e fazendo comentários desagradáveis. Como eu sou cínica, como a minha natureza é cínica, eu falei “eu sou vascaína” e olhei putamente fundo pra eles e eles ficaram constrangidos. O clima tenso palpável no ar, uma garotinha minúscula cheia da arrogância. O mais simpático e menos orgulhoso apertou a minha mão, me desejou parabéns e a minha mãe ficou chocada.

É lindo, vá. É superficial mas é lindo.

Eu sou mangueirense porque eu nunca tive contato com o meu pai. Quer dizer, a nossa relação é ótima, ele é parecido comigo, ele me conhece apesar de não nos vermos muito, ótimo gosto musical, mas nunca teve aquele contato, aquela coisa de falar todo mês. Todo ano. Ele é comunista. Comunista, sabe? Não tem telefone fixo, se exime ao máximo da culpa de viver num mundo capitalista e escroto. Então é difícil falar com ele. Até porque ele vive viajando (não, ele não é hippie) e eu não sei qual dos endereços dele é vigente e é como tentar falar com um traficante. E eu não vou escrever cartinha ou ligar pra alguma das minhas tias-xis pra descobrir o paradeiro do velho. Ai, que horror. Como eu sempre tive essa consciência de que eu não sabia quando iria vê-lo novamente, tinha que tornar a porra toda intensa e única.

Um dia ele apareceu com uma camisa rasgada, meio punk, assim, com um “100% MANGUEIRA” em neón, uma coisa meio guêi e eu fiquei com medo de desapontá-lo e dizer que não gostava de escolas de samba e carnaval e essas coisas. Eu fui bonitinha, escondi a verdade.

Aí na apuração dos votos eu morro, fico puta, fico com uma taquicardia, sabe, tomo café pra caramba, meu rosto fica quente, etc.

E eu queria dizer que hoje é o Dia da Raquel, que eu criei, que foi pra mim. Hoje é o dia em que eu vou fazer o que eu mais gosto de fazer, excetuando coisas de ordem sexual, tipo, hoje eu vou ver um filme, beber alguma coisa que me deixe feliz e leve, hoje eu vou dormir com uma calcinha ridícula no frio, hoje eu vou despejar verdades de madrugada, hoje eu vou tomar muito café, hoje eu vou, eu vou não, hoje eu estou usando a minha camisa de lenhador preferida e ponto final. Quero nem saber. Foda-se. Hoje vou analisar desconhecidos. Fim. Ponto. E por que caralhos eu não consigo cadastrar essa merda de petição inicial, porra?

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