04/06/2009

Rezistro

Perdi o meu RG. Acho que perdi em casa. Não mostro meu RG a ninguém porque não gosto da foto do RG, da letra — eu estava desconfortável para escrever) e eu também não gosto do nome do meu pai. Eu acho que perdi em casa.

Existem pessoas que foram concebidas com o propósito de perder seus respectivos RGs, então tudo bem. Contanto que elas existam para que eu não fique sozinha. E contanto que elas não tenham palavra, também. Honestidade zero, cinismo oitocentos.

Sabe, vou persuadir todo mundo a me ligar amanhã. E eu não vou atender. Nem vou estar em casa. . Nunca comi palmito, mas dizem que é bom. Então estarei fora dos limites do meu lar comendo palmito. Vou me comer, porque o nome do palmito é Raquel.

Tá frio. Frio demais. Pela primeira vez em tempos, quero colo. E eu quero que esse colo seja em Copacabana, no banquinho de pedra. E que eu possa deitar a minha cabeça. E eu quero que continue frio, assim, desse jeito e que seja fim de tarde. E que não tenha ninguém com pouca roupa. Nem molhado. Quero tudo seco. A não ser que chova, mas se chover, tudo continua. Não quero ter diploma de nada. Nem de gente.

Tudo atrasado. Meu relógio é diferente do seu, ele é rosa e eu ganhei esse relógio, então eu uso o tempo todo. O meu relógio é diferente do seu, ave, ele é uma hora atrasado. Não diga para ninguém que sou eterna atrasada. Nem que você me ama por isso. Como o Centro que é superpovoado às 17:20. Quantas xícaras de açúcar você põe na sua colher de café?

Segundo Paula Gicovate, “o mundo é dividido entre as meninas que quando crianças carregavam estojos abarrotados de canetas coloridas para a escola e as outras, que sempre perdiam tudo e pegavam emprestado.”

Estamos na mesma segunda categoria.

Apenas sorria. Assim como eu. Plenamente, de maneira retardada e irracional, sempre. Você vai deixar alguém com taquicardia.

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