— Tenho uma coisa pra te falar.
— É sobre você?
— Aham.
— Vai me fazer chorar?
— Não, não vai. Você não choraria por isso.
— Então fala.
— Em dois meses eu tô indo embora.
Segredo: chorei.
06/12/2009
10/11/2009
Caso Surreal
Fui almoçar. Olho no ristorante inteiro: um lugar vago, ao lado dos Deuses Gregos. Como não sou mulher de esperar, fui direto para a mesa. O bonitinho não se deu ao trabalho de retirar a sua grande mochila que impedia a minha pessoa de sentar na cadeira, então, como não sou mulher de esperar, peguei a mochila e tasquei longe.
Mentira.
Chamei “o grande” e pedi para retirar a mochila do gentleman, que nem se importou. No caminho de volta ao escritório, uma moça tatuada, com cara de viciada em drogas na abstinência, levemente chapada, me diz que consulta com Profetisa Valquíria é de graça. De graça até injeção no olho e, até porque, sou arroz soltinho — tooooooooda receptiva. Vamos. Então, subi numa escadinha de madeira traçando rotas de fuga e revendo meus golpes fatais que aprendi a nunca coloquei em prática.
— Nome?
— Raquel Estrela. (sempre mentindo os nomes)
Então, vejo um senhor transtornado e chorando. Taquicardia, “hm, já vi que será emocionante”.
Entro na sala, branca e uma mulher com cara de louca, vários anéis e trajando jaleco sentada, me olhando.
— Você que é a Raquel, hm, Estrela?
— Eu merma.
— Você tem algum problema?
— Não.
— Você tem insônia?
— Tenho.
— Isso já é um problema, correto?
— Correto.
— Quando você não consegue dormir, o que faz?
“Eu me masturbo vejo vídeos pornôs do Burning Angel.”
— Eu fico olhando pro teto.
— Sua cabeça fica vazia, não é?
“Nunca! Cafeína e sangue no olho!”
Então, comecei a pensar em corsets. Vocês não tem noção, a mulher era uma vigarista da cabeça aos pés.
— Sim senhora.
— Você mora com a sua mãe e seu pai?
— Não, só a matriarca.
— Eles são separados?
— Nunca se casaram.
— Isto é um trabalho de feitiçaria que fizeram contra a sua avó e que refletiu nos filhos e filhas e vai refletir em você.
Pausa. Dona Juliana, minha avó? Dona Juliana morreu em 1982, ainda no capiau interior e todos da cidade a amavam e veneravam e todos compareceram ao enterro. Sem exceção. Então, ela pediu para eu falar da minha vida sentimental. Falei que nem guêi no armário, “uma pessoa”, “uma pessoa”, nada demais. Então eu falo que não costumo me envolver sentimentalmente com as pessoas (entretanto tenho uma promiscuidade sentimental escandalizadora).
Então ela disse eu ia às festas toda arrumada e que me perguntava o por quê dos homens não olharem pra mim. Isso nunca aconteceu, biexo. Os caras sempre mexem e sempre é desagradável. E ela tocou muito nessa tecla dos meus homens que não olham pra mim, dizendo que eu me perguntava o por quêêêê eles não comentavam, cara, eles comentam, elogiam, bibibibi. Louca de jaleco.
Então ela disse que era para eu levar a matriarca para fazer uma limpeza espiritual, pois éramos afetadas por entidades e McBlá. Então, ela pegou na minha mão e disse que era para eu pensar na minha vida e disse que eu era invejada no trabalho.
Claro. Trabalho com três pessoas muitíssimo bem sucedidas e que provavelmente não sentem inveja das minhas camisas de lenhador. Mulher não fazia o mínimo pra impressionar, tava me sentindo traída. Então, ela diz que se fosse de meu interesse, que levasse uma peça íntima branca (pois a mesma disse que não trabalhava com outras cores). Malzaê, minha bregaíntima só tem bege.
Emocionada, ela abriu a gaveta e me deu um saquinho com sal ESPIRITUALIZADO (palavras dela) que era para eu colocar no meu armário e que amanhã, se eu quisesse comparecer ao culto, curimba, exorcismo, sei lá, que levasse uma oferta S-I-M-B-Ó-L-I-C-A de R$ 21.
04/11/2009
Tudo deslizando. Desliza fácil. Das minhas mãos e vida. Eu deslizo, meu deslizamento me projeta através quedas sequenciais, tropeços. Imagina se o chão da rua fosse como o chão de banco.
Quando pegam no meu cinto que tem uma caveira eu acho sempre uma coisa muito erótica porque tudo é muito erótico pra mim. Minha essência de menino pós-descoberta com Playboy nas mãos.
Vou te cortar em cubinhos porque (te) comer em cubinhos é mais gostoso. Ou não. Eu gosto das coisas frias, ponho no freezer. Num freezer que não é meu, com cervejas que não ão minhas. Odeio cerveja.
Ou não, afinal. Sou quente paca. Não posso tocar, nem te comer em cubinho, caso contrário você se desfaz.
Você se incomoda se eu passar a mão no seu cabelo? Desde que esse seja cabelo composto por olhos profundos e sorriso estonteante. Aí eu quero sim. Muito bom. Meu amor é gratuito.
Tenho superpoderes. Posso me tornar invisível, por exemplo. Mesmo quando o que eu mais quero é ser vista.
“You're perfect, yes, it's true/But without me you're only you”
15/10/2009
— Bom dia!
— Porra! Bom dia? Você sabe que merda de dia que foi o meu? Você tem noção de quanto o meu dia foi escroto? Que eu fui demitido? Que um carro passou e me molhou todo? Você sabe, porra? Então enfia essa sua sua educaçãozinha dada pelos teus pais onde o sol não bate. E sabe o que mais? São nove horas da noite. Você é retardada ou o quê?
— Bom dia porque… o “dia” abrange o dia inteiro, porque estamos quase no horário de verão e eu não sei o que é noite, bom dia porque hoje eu falei com você, bom dia porque eu te amo porque você é a pessoa mais fodida do mundo inteirinho. Bom dia você, bom dia vida. Bom dia.
— Porra! Bom dia? Você sabe que merda de dia que foi o meu? Você tem noção de quanto o meu dia foi escroto? Que eu fui demitido? Que um carro passou e me molhou todo? Você sabe, porra? Então enfia essa sua sua educaçãozinha dada pelos teus pais onde o sol não bate. E sabe o que mais? São nove horas da noite. Você é retardada ou o quê?
— Bom dia porque… o “dia” abrange o dia inteiro, porque estamos quase no horário de verão e eu não sei o que é noite, bom dia porque hoje eu falei com você, bom dia porque eu te amo porque você é a pessoa mais fodida do mundo inteirinho. Bom dia você, bom dia vida. Bom dia.
05/10/2009
— Não conte a ninguém.
— Contar o quê?
— O que eu te falei no outro dia.
— Que dia?
— Naquele dia em que eu salvei a sua vida.
— E que dia foi isso? Causa de quê que eu não lembro?
— Não se faça de desentendido não, viu.
— Eu não estou me fazendo… o que é que eu não posso contar pra ninguém?
— Ninguém não. Alguém. É segredo. As pessoas não podem saber.
— Saber, de contas, o quê?
— Que eu disse que eu gostava de você porque pra salvar a tua vida eu precisaria te trazer comigo pra sempre.
— Contar o quê?
— O que eu te falei no outro dia.
— Que dia?
— Naquele dia em que eu salvei a sua vida.
— E que dia foi isso? Causa de quê que eu não lembro?
— Não se faça de desentendido não, viu.
— Eu não estou me fazendo… o que é que eu não posso contar pra ninguém?
— Ninguém não. Alguém. É segredo. As pessoas não podem saber.
— Saber, de contas, o quê?
— Que eu disse que eu gostava de você porque pra salvar a tua vida eu precisaria te trazer comigo pra sempre.
28/09/2009
drink up, baby/stay up all night/things you could do, you won't, but you might/the potential you'll be that you'll never see/promises you'll only make
drink up, baby, look at the stars/i'll kiss you again between the bars/where i'm seeing you there/with your hands in the air, waiting to finally be caught
drink up one more time and i'll make you mine/keep you apart, deep in my heart/separate from the rest, where i like you the best/and keep the things you forgot/people you've been before that you don't want around anymore/they push and shove and won't bend to your will/i'll keep them still
drink up, baby, look at the stars/i'll kiss you again between the bars/where i'm seeing you there/with your hands in the air, waiting to finally be caught
drink up one more time and i'll make you mine/keep you apart, deep in my heart/separate from the rest, where i like you the best/and keep the things you forgot/people you've been before that you don't want around anymore/they push and shove and won't bend to your will/i'll keep them still
25/09/2009
Bibibibibibibissex
Agora que estou com o mínimo de paciência, contarei minha ida a Bienal e não somente as frases soltas do post anterior. Não vou faz tempo, odeio o Riocentro com todas as forças que existem no meu ser. Odeio mais que pisar em barra de calça.
Caí da cama. Acordei. Esfreguei os olhos cinco vezes, sei lá. Olho no meu mais novo relógio vermelho e supercolorido e digital (apesar de amar analógicos e tudo o mais, mas relógio analógico não pode ser feliz e colorido, tem que ser tradicional e ranzinza, hm, preciso mandar consertar o meu): 8:30.
Só sei que o tempo passou escorregando e somente 9:30 eu tava lá. No metrô, perguntando pro guardinha como que fazia a integração praquele lugar. Sendo que eu demorei pra me arrumar uns 15 minutos, creio que o resto foi dividido entre o meu banho tipo flash e o meu café, que é a minha hora sagrada e demorada e blasé e clichê do dia.
— Não tem conexão direta com o Riocentro.
— Como assim não tem? Eu pego metrô todos os dias e todos os dias encheram o meu saco falando para eu ir a Bienal de metrô e metrô na superfícia e nãoseioquê.
— Veja bem. Você vai, desce na Siqueira ou em Del Castilho. De lá, você pega um ônibus e vai pra Alvorada. Da Alvorada você pega um outro ônibus que custa R$ 1,10 e tá tudo bem, ok?
— Tá.
Tá.
Em Del Caishxxhxhxhxhtilho, eu falei com o guardinha, muito mais simpático do que eu, que disse que eu deveria correr para pegar o último ônibus pertinho. E aí eu corri e não alcancei e olha que eu corro muitomuitomuito rápido, velocidade da luz, flash, etc. Peguei no xópim.
Estava eu, no ônibus, comendo batatinhas e tomando suquinho. Acabaram-se batatinhas e suquinho. Quando, olhando pro lado, uma menina apontou pra mim e riu. E riu mesmo, tipo, “olha aquela babaca!” e foi super nítido e ela tava olhando pra mim. Só pra mim. E a amiguinha dela também.
— Ju, tem alguma coisa na minha cara?
— Não.
— Eu estou feia?
— Você tá linda, querida.
— Tem alguma coisa no meu dente?
— Não.
— Tem alguma coisa de errado?
— Não.
Como eu sou muito madura, passei a desejar que o meu ônibus passasse pelo delas para eu dar o troco e, veja, passou. Então eu dei o troco na mesma moeda e ela ficou com cara de origami. Eu venci! Ha! Ha!
E eu pensando que ia ficar nisso o dia inteiro, mas aí o ônibus virou e fim de história. A Barra é um lugar de condomínios de luxo e tinha um lugar que era um prédio de cada cor primária.
Chegamos na Alvorada. Engraçado que na Alvorada tinha um lugar que vendia passagens para São Paulo, Campinas, Shereperetuz Santhuz, sabe… Haha, tipo “hm, opa, vamos a Bienal ou damos uma passadinha em São Paulo?” Chegamos na Bienal.
Muitos grupos escolares, muitos mesmo. E eu tenho pavor de grupos escolares, porque a maioria de gente de escola sempre foi, é e será escrota, gente que oprime e deixa pessoas tipo eu, assim.
Mas aí eu vi um grupo de escoteiros! E tinha um casal e eles tavam se beijando horrores, na grama, com aquele lenço. Se algum deles tivesse piscado pra mim, eu pensaria que é o Código Morse e não uma cantadinha básica.
Tudo muito caaaaro! Nossa! Um pastel R$ 4,00! Quatroreais. Obviamente não comi pastel. Comi croissant. Eu comi muitas coisas, na realidade.
Muita gente, muita efusividade (“Thalita! Noooooossa, olha a Thalita Rebouças! Que simpááática! ÓÓÓ, sou sua fããã!”), muito exagero e coisas que me fazem mal.
Mas aí eu vi uma família de pessoas vestidas de Mulher Maravilha. Não totalmente, mas com a tiara e os braceletes, sabe. De papelão. Que eles conseguiram em algum lugar-xis pelo qual não passei.
Tudo muito caro, nossa! Um cachorro-quente só pão-e-salsicha-e-cebola tava R$ 3,00. Obviamente não comi cachorro-quente. Comi crossaint maravilha, que era relativamente mais barato. Comi muitas coisas, na realidade.
Fui no tal Café Literário três vezes. Conclusões: a) A Ivana Arruda Leite sorriu pra mim e só pra mim e isso é uma coisa linda; b) Marcelino Freire é o cara mais legal do mundo e eu dei um abraço nele porque ele é o cara mais legal e eu nem fazia muita idéia, puta que pariu, cara mais legal do mundo e ele me lembra o cara que eu mais odeio; c) muito feio fumar num lugar fechado e matar todo mundo intochicado; d) conheci uma professora cujo nome é Cíntia e ela é muito bacana e ela é alguém na vida e ela é fofinha e leitora da Ivana e do Marcelino — que são meus amores, me pagou uma bebida e eu fiquei emocionada (depois eu fui ver que custava R$ 6,00 e me senti um lixo); e) me apaixonei umas seis vezes.
E aí eu fui ver o Zé Mayer. Só queria ver. E ele é a mesma coisa da TV e tem vozeirão grosso bonito. E um pescoço desagradável.
E o Paulo José que eu sempre achei bacana.
Não vejo diferença entre o Zé Mayer fazer par romântico com a Taís Araújo e o Paulo José também. Paposério.
E eu queria saber se eu tava na fila certa. Então, cutuquei o moço jovem alto e vistoso e coisa e tal. Só que eu tive a impressão de que alguma coisa caiu e olhei imediatamente para baixo e ele também. Haha, mesmo movimento. E foi bem rápido e engraçadinho. Ele se sentiu idiota.
Tadinho.
E eu vi o Ancelmo Góis! E ele perguntou como eu estava. ^^
20/09/2009
Bienal do Livro
“Não existe mais hoje em dia aquela coisa do pau duro que paga a conta. Existe a coisa do pau mole que racha. E as pessoas se apaixonam pelo pau mole.”
“Aqui só há muléris! Ninguém aqui é hermafrodita, então, não precisa fazer xixi de pé…” (a moça que limpava os banheiros — corretíssima)
“Adoro o jeito com que você passou rápido por mim e, quando ofereci a revista de cortesia, você virou e disse toda firme: EU ACEITO!”
“CARACA! Meu, olha isso, Raquel! Escoteiros! Escoteiros de verdade! Deitados na grama! Se beijaaaando!”
“Então você é uma leitora de Ivana?”
“Faz assim, a gente vê o Zé Mayer…”
“Olha aquela menininha! Ela tá vestida de mulher maravilha! Tem até os braceletes! — Oi, onde você conseguiu isso aqui? — Anhmmm, não lembro. Mãe, onde eu consegui isso aqui?”
P.S.: Não faço IDÉIA de quem seja Thalita Rebouças.
P.S²: O ponto G da Bienal era o stand da Saraiva.
“Aqui só há muléris! Ninguém aqui é hermafrodita, então, não precisa fazer xixi de pé…” (a moça que limpava os banheiros — corretíssima)
“Adoro o jeito com que você passou rápido por mim e, quando ofereci a revista de cortesia, você virou e disse toda firme: EU ACEITO!”
“CARACA! Meu, olha isso, Raquel! Escoteiros! Escoteiros de verdade! Deitados na grama! Se beijaaaando!”
“Então você é uma leitora de Ivana?”
“Faz assim, a gente vê o Zé Mayer…”
“Olha aquela menininha! Ela tá vestida de mulher maravilha! Tem até os braceletes! — Oi, onde você conseguiu isso aqui? — Anhmmm, não lembro. Mãe, onde eu consegui isso aqui?”
P.S.: Não faço IDÉIA de quem seja Thalita Rebouças.
P.S²: O ponto G da Bienal era o stand da Saraiva.
11/09/2009
— Baby, você está vendo pra esse rostinho? Esse rostinho moveu mundos para estar aqui, esse rostinho acordou há vinte minutos, então, nada de perguntar “que cara é essa?” ou se eu sou japonesa, ok?
— Ok. Adorei o seu guarda-chuva.
— Pin-up girrrrrrrrrrrrrls.
29/08/2009
— Raquel, quando você está em casa você fica tão feia.
— Eu estou em casa. Tenho que ficar confortável.
— E a sua definição de conforto é usar um casaco três vezes maior que você, uma samba-canção, pantufas de cetim de um homem falecido?
— Ué… É.
— Eu estou em casa. Tenho que ficar confortável.
— E a sua definição de conforto é usar um casaco três vezes maior que você, uma samba-canção, pantufas de cetim de um homem falecido?
— Ué… É.
28/08/2009
Os homens do Centro do Rio
No ano retrasado, eu sempre comprava balas de hortelã e outros artigos com um senhor que vendia tudo isso do lado direito da saída da estação do metrô. Eu dava boa tarde e ele sempre sorria. Ele era careca. Um dia ele perguntou se podia me pedir uma coisa. Eu tenho sexto sentido forte pra caramba e, institivamente disse “não”, “por favor!”, “não”. Pedir para eu encontrar o filho que ele não vê há trinta anos — ok. Ver se a careca dele brilha o suficiente — ok.
Na semana seguinte ele perguntou se podia e, porra, eu disse um não bem forte, porque para insistir tanto assim, coisa boa não pode ser. Obviamente. Na outra vez ele mandou a educação à (crase) merda e perguntou se eu poderia trepar com ele. Claro que não foi com essas palavras, porque as pessoas não são diretas, elas dizem tudo com eufemismos, porque as pessoas gostam de eufemismos. Eu não esbocei nenhuma reação e fui embora, enojada, porra, eu compro balas e pessoa tem desejos sexuais por mim, por meninas novas e esquisitas. Doentio isso.
Eu detesto eufemismos sexuais e eu ia dar um exemplo de como as pessoas não são diretas e ia dizer que ninguém diz “ei, vamos fazer um papai-mamãe agora”, mas é um exemplo surreal demais, meio impossível. Acho bacana as pessoas que são diretas, tipo eu, que dizem “quero te comer agora”, ok, eu não sou tão direta assim, mas, vejamos, eu não insinuo as coisas, o que já é um grande passo. E, melhor, além de não insinuar, se eu insinuasse, não seria aquela insinuação escrota.
Então, eu passei a ir pelo outro lado da estação. O lado esquerdo e, basicamente, tanto faz o lado. O tempo é o mesmo. Fiquei com medo dele fazer mais propostas de ordem sexual.
Esse ano, um daqueles caras que dão papéis de Compro Ouro na Presidente Vargas me parou. Me chamou de princesa, disse que ele ficava lá até 17h e que poderíamos esticar.
Tem uma banca de jornal que fica perto da estação e um velhinho muito bonitinho vendia livros a R$ 1.00. Ele tinha um gosto literário horrível, mas volta e meia tinham algumas coisas boas. Ele era francês. Os livros que ele vendia eram os livros dele, que ele resolveu se desfazer. Ele tinha livros em francês, guias de astrologia e aquelas revistas de mulher solteirona tipo Sabrina. Hoje lembrei dele e resolvi fazer uma visita, perguntar da vida, etc.
O dono da banca agora era o careca vendedor de balas de hortelã e outros artigos. Ele tava de bigode. Fiquei horrorizada, ainda mais porque ele tornou a me cantar, tipo, ele disse que fazia desconto pra mim porque “por você eu faço tudo, morena” e, sei lá, horrorizada.
Na semana seguinte ele perguntou se podia e, porra, eu disse um não bem forte, porque para insistir tanto assim, coisa boa não pode ser. Obviamente. Na outra vez ele mandou a educação à (crase) merda e perguntou se eu poderia trepar com ele. Claro que não foi com essas palavras, porque as pessoas não são diretas, elas dizem tudo com eufemismos, porque as pessoas gostam de eufemismos. Eu não esbocei nenhuma reação e fui embora, enojada, porra, eu compro balas e pessoa tem desejos sexuais por mim, por meninas novas e esquisitas. Doentio isso.
Eu detesto eufemismos sexuais e eu ia dar um exemplo de como as pessoas não são diretas e ia dizer que ninguém diz “ei, vamos fazer um papai-mamãe agora”, mas é um exemplo surreal demais, meio impossível. Acho bacana as pessoas que são diretas, tipo eu, que dizem “quero te comer agora”, ok, eu não sou tão direta assim, mas, vejamos, eu não insinuo as coisas, o que já é um grande passo. E, melhor, além de não insinuar, se eu insinuasse, não seria aquela insinuação escrota.
Então, eu passei a ir pelo outro lado da estação. O lado esquerdo e, basicamente, tanto faz o lado. O tempo é o mesmo. Fiquei com medo dele fazer mais propostas de ordem sexual.
Esse ano, um daqueles caras que dão papéis de Compro Ouro na Presidente Vargas me parou. Me chamou de princesa, disse que ele ficava lá até 17h e que poderíamos esticar.
Tem uma banca de jornal que fica perto da estação e um velhinho muito bonitinho vendia livros a R$ 1.00. Ele tinha um gosto literário horrível, mas volta e meia tinham algumas coisas boas. Ele era francês. Os livros que ele vendia eram os livros dele, que ele resolveu se desfazer. Ele tinha livros em francês, guias de astrologia e aquelas revistas de mulher solteirona tipo Sabrina. Hoje lembrei dele e resolvi fazer uma visita, perguntar da vida, etc.
O dono da banca agora era o careca vendedor de balas de hortelã e outros artigos. Ele tava de bigode. Fiquei horrorizada, ainda mais porque ele tornou a me cantar, tipo, ele disse que fazia desconto pra mim porque “por você eu faço tudo, morena” e, sei lá, horrorizada.
26/08/2009
Verde, rosa, preto e branco. Acho.
Eu sou vascaína e mangueirense. Sempre disse que contaria as duas histórias porque elas são lindas e devem ser contadas.
Eu sou vascaína porque um dia, no auge dos meus independentes três ou quatro anos, umas vizinhas me perguntou qual era o meu time. Em toda a minha fofurice, perguntei “o que é um time?”. A Clarissa, putz, eu lembro o nome dela, me puxou num canto e eu pensei que, sei lá, ia rolar uns amassos. Ok, eu não pensei, porque eu não tinha toda essa malícia nos meus três anos, mas se fosse hoje em dia eu provavelmente pensaria assim. Então, ela disse: “diga Vasco, ok? Só isso” e eu disse. Essa é a porra da história linda da minha vida, eu, sendo manipulada por uma vizinha e mentindo na cara dura.
Uma semana depois, ou dois anos depois, vá saber, o Vasco ganhou um jogo relativamente importante contra o Flamengo e lá estava eu, a matriarca, com três machos flamenguistas, dentro do elevador. Eles putos e fazendo comentários desagradáveis. Como eu sou cínica, como a minha natureza é cínica, eu falei “eu sou vascaína” e olhei putamente fundo pra eles e eles ficaram constrangidos. O clima tenso palpável no ar, uma garotinha minúscula cheia da arrogância. O mais simpático e menos orgulhoso apertou a minha mão, me desejou parabéns e a minha mãe ficou chocada.
É lindo, vá. É superficial mas é lindo.
Eu sou mangueirense porque eu nunca tive contato com o meu pai. Quer dizer, a nossa relação é ótima, ele é parecido comigo, ele me conhece apesar de não nos vermos muito, ótimo gosto musical, mas nunca teve aquele contato, aquela coisa de falar todo mês. Todo ano. Ele é comunista. Comunista, sabe? Não tem telefone fixo, se exime ao máximo da culpa de viver num mundo capitalista e escroto. Então é difícil falar com ele. Até porque ele vive viajando (não, ele não é hippie) e eu não sei qual dos endereços dele é vigente e é como tentar falar com um traficante. E eu não vou escrever cartinha ou ligar pra alguma das minhas tias-xis pra descobrir o paradeiro do velho. Ai, que horror. Como eu sempre tive essa consciência de que eu não sabia quando iria vê-lo novamente, tinha que tornar a porra toda intensa e única.
Um dia ele apareceu com uma camisa rasgada, meio punk, assim, com um “100% MANGUEIRA” em neón, uma coisa meio guêi e eu fiquei com medo de desapontá-lo e dizer que não gostava de escolas de samba e carnaval e essas coisas. Eu fui bonitinha, escondi a verdade.
Aí na apuração dos votos eu morro, fico puta, fico com uma taquicardia, sabe, tomo café pra caramba, meu rosto fica quente, etc.
E eu queria dizer que hoje é o Dia da Raquel, que eu criei, que foi pra mim. Hoje é o dia em que eu vou fazer o que eu mais gosto de fazer, excetuando coisas de ordem sexual, tipo, hoje eu vou ver um filme, beber alguma coisa que me deixe feliz e leve, hoje eu vou dormir com uma calcinha ridícula no frio, hoje eu vou despejar verdades de madrugada, hoje eu vou tomar muito café, hoje eu vou, eu vou não, hoje eu estou usando a minha camisa de lenhador preferida e ponto final. Quero nem saber. Foda-se. Hoje vou analisar desconhecidos. Fim. Ponto. E por que caralhos eu não consigo cadastrar essa merda de petição inicial, porra?
21/08/2009
Ironia
— Raquel, você está tão sexy hoje.
— Sexy? Como assim? Você tá me zoando?
— Não.
— Sexy pra mim é ironia.
— Talvez o cabelo caindo no seu rosto, você com o ar tão despreocupado, nem notando nada… esse cordão que você está usando e acha que ninguém vai perceber. Talvez sejam as suas calças, que ficam caindo, a maneira como você tem essas manias tão bonitinhas, quase um tique nervoso (aí eu penso que em coisas tipo um olho no peixe e outro no gato). Essa camisa com esse ar envelhecido, tão linda…
— No dia em que tudo isso fizer, sei lá, pegar alguém, eu te ouço.
14/08/2009
01/08/2009
— Você tá esperando por alguém?
— Não.
— Eu estou esperando por alguém. Mas eu não sei se virá. Posso ser esperada por você?
— Não.
— Eu estou esperando por alguém. Mas eu não sei se virá. Posso ser esperada por você?
22/07/2009
Sobre cigarrillos y celos
Hoje eu comprei um tênis novo e sinto machucar os corações apaixonados por mim. Agora eu tenho um tênis que tem sola e isso é muito bom. Quando chover, eu posso olhar pro céu agora. E não pro chão. E não molhar as minhas meias. Segredo: a única que não é furada é rosa-choque.
Eu acabei de acordar. Eu acabei de dormir, na realidade. Eu deitei na minha cama, olhei pro teto e dormi. Muito tempo que eu não fazia isso.
A história de por que não viramos porra de monstros e nos tornamos aquilo que chamamos de “pessoas”. Eu tava aqui, pensando. Mãozinha no queixo e tudo. A hora do relógio está errada, acho que uns vinte minutos adiantada.
A coisa mais legal que aconteceu na semana passada foi conhecer uma menina que tinha o sorriso da Natalie Portman. E, dia desses, a atriz ruiva que me olhou nos olhos enquanto falava dos olhos de Teresa do poema do Manuel Bandeira. Ela me olhou bem no fundo. E todo mundo reparou. Eu devo ter comentando. Olhou a alma. Na realidade ela deve ter encontrado um oco, por isso parou de olhar.
Que porra, quero ficar aqui escrevendo pra sempre.
Eu devia parar de ser assim. Tô estranha tem um tempo. Estranha para o meu habitual, então pensa. Deve ser o caos.
— Eu queria tomar café agora, mas elas vão achar que eu sou viciada.
— Você é viciada.
— Você acha isso?
— Sim.
— Como se define um vício?
— Questão de tempo/vezes. Última abstinência. Se é uma das primeiras coisas que você faz ao acordar.
— Eu sou uma viciada.
É cômodo demais pra mim ser indiferente, ralar o joelho e usar shorts como se nada tivesse acontecido. Ai, cinismo. É sincero e real. O negócio é que eu quero sentir mais, sei lá, sofrer. Eu não nasci pra me foder a porra do tempo todo? Então. Desce e se fode aí. Dedico a Núbia, que faz parte do grupo dos que nasceram para tomar no cu. Só que eu tomo no cu sozinha, porque eu sou louca. Com ela acho que é conspiração do Além.
Meu pescoço dói. Eu quebrei a cama.
— E pra quê você quer um cigarro?(a resposta não é óbvia, uma vez eu peguei um cigarro e escrevi “eu te amo” e dei para a menina fumante compulsiva que eu, de fato, amava, amo, coisa e tal, ela ficou feliz e eu disse que dava um tiro nela se ela fumasse os meus sentimentos)
— Não sei. Vontade de fumar.
— Hm.
— Fumar, chorar. Aí eu fico bêbada. Chorar, fumar de novo e aí tomar um café. Ou um chá.
— Uhum.
— Eu vou agora. Preciso me trocar. E, fica bem.
— Uhum. Fica..., ...., (...), ..., (...), (...) bem também.
Porra, eu realmente quero que você fique bem. Às vezes falar com você é mais um soco no estômago que qualquer outra coisa. Anyway, vou tomar café.
Eu acabei de acordar. Eu acabei de dormir, na realidade. Eu deitei na minha cama, olhei pro teto e dormi. Muito tempo que eu não fazia isso.
A história de por que não viramos porra de monstros e nos tornamos aquilo que chamamos de “pessoas”. Eu tava aqui, pensando. Mãozinha no queixo e tudo. A hora do relógio está errada, acho que uns vinte minutos adiantada.
A coisa mais legal que aconteceu na semana passada foi conhecer uma menina que tinha o sorriso da Natalie Portman. E, dia desses, a atriz ruiva que me olhou nos olhos enquanto falava dos olhos de Teresa do poema do Manuel Bandeira. Ela me olhou bem no fundo. E todo mundo reparou. Eu devo ter comentando. Olhou a alma. Na realidade ela deve ter encontrado um oco, por isso parou de olhar.
Que porra, quero ficar aqui escrevendo pra sempre.
Eu devia parar de ser assim. Tô estranha tem um tempo. Estranha para o meu habitual, então pensa. Deve ser o caos.
— Eu queria tomar café agora, mas elas vão achar que eu sou viciada.
— Você é viciada.
— Você acha isso?
— Sim.
— Como se define um vício?
— Questão de tempo/vezes. Última abstinência. Se é uma das primeiras coisas que você faz ao acordar.
— Eu sou uma viciada.
É cômodo demais pra mim ser indiferente, ralar o joelho e usar shorts como se nada tivesse acontecido. Ai, cinismo. É sincero e real. O negócio é que eu quero sentir mais, sei lá, sofrer. Eu não nasci pra me foder a porra do tempo todo? Então. Desce e se fode aí. Dedico a Núbia, que faz parte do grupo dos que nasceram para tomar no cu. Só que eu tomo no cu sozinha, porque eu sou louca. Com ela acho que é conspiração do Além.
Meu pescoço dói. Eu quebrei a cama.
— E pra quê você quer um cigarro?(a resposta não é óbvia, uma vez eu peguei um cigarro e escrevi “eu te amo” e dei para a menina fumante compulsiva que eu, de fato, amava, amo, coisa e tal, ela ficou feliz e eu disse que dava um tiro nela se ela fumasse os meus sentimentos)
— Não sei. Vontade de fumar.
— Hm.
— Fumar, chorar. Aí eu fico bêbada. Chorar, fumar de novo e aí tomar um café. Ou um chá.
— Uhum.
— Eu vou agora. Preciso me trocar. E, fica bem.
— Uhum. Fica..., ...., (...), ..., (...), (...) bem também.
Porra, eu realmente quero que você fique bem. Às vezes falar com você é mais um soco no estômago que qualquer outra coisa. Anyway, vou tomar café.
16/07/2009
Explo@!2m0rewimdk
— Sinto que explodirei de tanto comer.
— Eu te cato se você explodir. Aí, ponho num potinho (como eu faço com as pessoas importantes, mas isso ela não sabe) e e guardo pra sempre, tá?
11/07/2009
Conversa de elevador
— Você tem uma iguana tatuada, né?
— Sim, eu tenho, eu gosto de iguanas.
— Eu tive uma iguana uma vez. Ela viveu por dez anos e tinha dois metros.
— Eu ia ter uma iguana, mas o cara furou.
— Você sabe que ela fica grande, né?
— Sim, com dois metros.
— E a média de vida?
— Dez anos.
(verídico — eu presenciei)
— Sim, eu tenho, eu gosto de iguanas.
— Eu tive uma iguana uma vez. Ela viveu por dez anos e tinha dois metros.
— Eu ia ter uma iguana, mas o cara furou.
— Você sabe que ela fica grande, né?
— Sim, com dois metros.
— E a média de vida?
— Dez anos.
(verídico — eu presenciei)
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